Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores, quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos—de reis ou de mendigos—ossos, terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio na sciencia, felizmente—n'este caso—para a minha consciencia. Tambem não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.

Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo de um rei, alli na sua terra predilecta—D. Fernando era santareno de affeição—não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe deshonrára o nome?

Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de…

Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde esteve? que ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.

Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra, que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito…

Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.

Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espirito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são: os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.