Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e imperfeitos;—em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.
Que sou eu então?
Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga…
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.
Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os sem dor.
CAPITULO XLIII.
Partida de Santarem.—Pinacotheca.—Impaciencia e saudades.—Sexta-feira.—Martyrio obscuro.—A figura do peccado.—Estamos no valle outra vez.—Evocação de incanto.—A irman Francisca e Fr. Diniz.—A teia de Penelope.—E Joanninha?—Joanninha está no ceo.—A mulher morta a dobar esperando que a interrem.—A esperança, virtude do christianismo.—Uma carta.
Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora.