E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e humida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.

Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.

O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes, pedia-me que fosse almoçar com ella… não fallava nas irmans.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.

Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no parlour elegante de seu exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas etagères com livros e musicas, uma harpa e um cavallete.

Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas…

A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a mais nada.