—'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui… muito demais… receio: como havemos de duvidar?'

—'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e prometto…'

—'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o póde cumprir.'

—'Juro por… por ella.'

—'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria—não sei o que faria eu… Mas não se tratta de mim'—proseguiu com volubilidade febril—'não se tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

—'Para a India!'

—'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor verdadeira d'alma que soffri… Aquelle era o primeiro amor sincero da minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por que passei.

Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um padecer como eu experimentei n'aquella hora?

Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão que vi nos seus… oh! como a heide esquecer nunca?