CAPITULO XLVIII.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles arredores!

Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.

Emfim o meu stage parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o tempo macio, não estava cru, segundo a expressiva phrase do paiz.

Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando, quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.

Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim de entre as árvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.

Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e graciosas teem trazido varinha de condão. Laura… ai! Laura tam longe estava d'alli… Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?

Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil não podia ser senão d'ella…