'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.

São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos theatros.

Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem por titulo 'Poeta em annos de prosa'.

E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia, ou ella havia de sahir primeiro.

Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada n'elles.

Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante' pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu prototypo?

E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.

'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.

Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em annos de prosa!'

Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..