São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella espero morrer… que alguma rara vez que me deixei inclinar para a heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que soffra todo o renegado… eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente se incontram aonde está toda a fé e toda a crença… n'uns olhos sincera e lealmente pretos.

Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante—era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade eram absorvidas.

Resta so accrescentar—e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da perna admiravel.

Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as mãos o novêllo da sua meada:

—'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'

—'Conversemos, avó.'

—'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'

Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.