O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.

Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham senso-commum, eram abstracções d'eschola.

Agora, do frade é que me eu queria rir… mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas cousas, duvidar e destruir por principio, adquirir e inriquecer por fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais certa.'

Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o Evangelho no coração.'

As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, condicção essencial de existencia para a sociedade civil—para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoista—última phase da civilização exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.

Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos.

Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do seu convento—cargo que acceitára por obediencia—e quasi que limitava as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia senão aquella velha e aquella criança?

Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este homem—homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?