E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema predilecto dos raros sermões que prégava: Non in solo pane vivit homo, Nem so de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem rezar… todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, do mesmo modo…

Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava castrar ainda por amor do ceo.

É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a viver.

Saibamos alguma coisa d'essa vida.

CAPITULO XVI.

Saibâmos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.

Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.