—'Dir-me-has porquê?..'
—'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui… porque sempre desconfiei, porque sei emfim…'
—'Sabes o quê?'
—'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'
Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de sepulchro:
—'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
—'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e serenidade 'as suas intenções serão boas talvez… creio que são boas, filhas de um remorso salutar…'
—'Que dizes tu, Carlos… que disseste?.. Oh, meu Deus!'
As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na inflexão, que lhes dava.
—'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é… não é meu; o pão que aqui se come… é comprado por um preço… Padre! ja ve que não podêmos fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.—Minha avó!' acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'