A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a desconsolada avó, para ninguem mais… nem uma palavra.
Joanninha ia lendo, lendo… e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal articulada em que se pedia a bençam da avó.
A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois… bemditto seja
Deus!'
Joanninha córou até o branco dos olhos… Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a morte: era a primeira vez que mentia… e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz apprová-la!
O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.
Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados… Seriam d'elle?
A avó e a neta abraçaram-se e choraram.
Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha…
Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e essas duas crianças! E a maior parte da gente que é gente, vive assim… E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh que enigma é o homem!
Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da carta—resposta que Joanninha so escreveu e so viu—e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.