No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de Joanninha.

Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade… Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda a segurança n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se com alguns d'elles… e de todos elles, a innocente e graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle… uma criança que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida…

Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.

É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte… no longo cêrco do Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços para passar no hynverno os alagadiços do valle,—essa querida imagem não o abandonára nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias—mais esquecidiças ainda!—pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o sentimento de seu coração.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde sahia… n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo… a quem, sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da innocencia infantil em que a deixára!