Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não
julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente…
A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo… e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina… Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não podiam ter rival, nem a haviam de ter.

Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha… oh! que lhe tinha elle feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e a alma?..

Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em claro.

A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava… aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava…

Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.

A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.

CAPITULO XXIII.