Dize-me, Néro, collocaste-me no throno a teu lado para que de mim zombasse a plebe insolente?... Mas que vejo?... em quanto me acabrunhão de ultrages, silencioso ahi ficas sem me vingares junto dessa que é a causa de todas as desgraças! Será, pois, verdade que Néro é o senhor do mundo, quando o povo lhe impõe uma esposa?

OCTAVIA.

Tu unica possues o coração de Néro: que temes pois? Eu, vil prisioneira, sou apenas obstaculo á audacia do povo. Alegra-te, pois, põe de parte os cuidados; tuas lagrimas preciosas seccaráõ em breve, quando vires correr em ondas o meu sangue.

NÉRO.

Dentro em pouco Roma inteira saberá da tua infamia, e conhecerá quão indigno era o idolo por ella escolhido. Os ultrajes, que te atirárão ás mãos cheias, Poppéa, transformar-se-hão em louvores; ás homenagens, que a ella prestárão, substituirá o opprobrio.

OCTAVIA.

Se alguem tentasse convencer-me do crime infame de que me accusão com provas vãs, a ti só, Poppéa, quizera eu por meu juiz. Tu sabes o que seja mudar a cada instante de amor, e sabes tambem qual a recompensa que merece quem de tal crime se torna ré. Mas a vossos olhos bem sei que sou innocente. Porque tu, que tens tanto orgulho da tua virtude, não ousas encarar-me?

NÉRO.

Que te atreves dizer? Respeita a esposa de teu senhor, treme...

POPPÉA.