Deixa que ella falle; bem faz em escolher-me para juiz; onde acharia outro mais indulgente? E que melhor castigo poderia eu inflingir áquella que trahio o amor de Néro, do que a perda desse amor? Haverá por ventura pena mais suave? Logo que eu houver provado a existencia da paixão infame, que debalde buscas esconder, tornarei publico teu crime; amante indigna de Eucéro, quero que sejas sua esposa.

OCTAVIA.

O escravo Eucéro é aqui o véo que cobre uma iniquidade mais vil do que elle proprio. Mas recuso discutir comtigo, não nasci para descer tão baixo, não sou, como tu, audaz...

NÉRO.

Com quem ousas comparar-te? A chamma adultera, em que ardes, põe-te abaixo da mais vil escrava; cahiste da alta posição onde te collocára o nascimento.

OCTAVIA.

Não me odiáras tanto, se com effeito eu tivesse decahido, ou se ao menos pudesses crê-lo. Entregar-te-hei, se o quizeres, tudo quanto me pertence, mas não a minha innocencia. Cruel Néro, embora sejas criminoso, não posso deixar de amar-te, nem de envergonhar-me deste amor. É opprobrio para mim, bem o sei, chamarem-me rival de Poppéa; mas, não o sou, esta mulher nunca te amou, não te ama, e só ambiciona a tua posição, o teu throno, o esplendor que o cerca.

NÉRO.

Perfida! Já...

OCTAVIA.