SENECA.

Fui, é certo, vil, emquanto me conservei em silencio; mas chegou o dia em que devo erguer a voz livre e dizer-te o que ainda não ouviste. Será isto pequena compensação para meus erros, mas a morte nestas circumstancias justificar-me-ha, talvez, aos olhos da posteridade.

NÉRO.

Terás, prometto, na historia o nome que mereces.

SENECA.

Emquanto eu ouvir os clamores do povo, emquanto poder abrandar pelo terror a tua crueldade, has de ouvir-me; apraz-me irritar-te, obrigar-te a ouvir a verdade, antes que caia morto, victima tua: se não me deres antes a morte, juro-te que não a darás a Octavia. Eu posso novamente excitar o povo, despertar-lhe ainda o furor mal applacado e torna-lo mais terrivel. Posso revelar-lhe nossos crimes communs e chamar sobre tua cabeça perigos mais serios do que imaginas. Fui conselheiro de Néro, e meu coração, como o delle, tornou-se empedernido. Rebaixei-me até acreditar, ou antes, a fingir que acreditava que erão culpados Britannico, por ter perdido o throno, Agrippina por o haver dado, Plauto e Sylla por terem sido julgados dignos delle, e Burrho por t'o haver conservado mais de uma vez. Eu sou, bem o sei, mais criminoso que elles todos; e, quer me conserves a vida, quer m'a tires, di-lo-hei a quem quizer ouvir-me. Sacia em mim o teu furor; podes fazê-lo impune; mas treme, se assassinares Octavia; lembra-te que seu sangue cahirá sobre tua cabeça. Eis quanto queria dizer-te; agora, se o queres, dá-me em resposta a morte.

SCENA III.
NÉRO, POPPEA.

POPPÉA.

Senhor, abranda o teu furor...

NÉRO.