Tão curto, senhor.
HAMLET
Como o amor de uma mulher.
Entram um REI e uma RAINHA
O REI DA PEÇA
Trinta vezes de Phebo o carro luminoso
De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,
E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,
De refrangida luz, á terra ha dado o preito,
Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,
E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.
A RAINHA DA PEÇA
Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,
Antes que d'este amor se rompa o doce laço;
Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,
E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,
Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,
Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.
Mas que não se perturbe o vosso animo forte
Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.
De affecto e de anciedade igual medida temos,
Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.
Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,
Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.
Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves
Transformam-se de prompto em maximos temores;
Quando é grande o receio, os affectos mais leves
Ascendem de repente aos mais grandes amores.
O REI DA PEÇA
Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta,
Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.
Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,
Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.
Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...
Um homem justo e bom...