Não é isso—começa por Pyrrho.

Este ouriçado Pyrrho havia uma armadura
Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura
Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.
Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,
No corpo traz agora, em rubros caracteres,
Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora
O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres,
E por mil bôcas, mata a sêde que o devora
No sangue recosido aos raios d'essa chamma
Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.
Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente
Após Priamo corre...

Continúa tu agora.

POLONIO

Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações proprias.

PRIMEIRO ACTOR

O velho, já cansado,
Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora
Como o raio veloz, lá onde cae descansa,
Indocil á vontade, e á mão rebelde agora,
Oh lucta desigual! lucta sem esperança,
Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!
E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado
O guerreiro senil! Então, Troia abatida
Parece haver sentido, os golpes derradeiros:
Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,
Desabam sobre a base em chammas os outeiros,
E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.
Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,
Já prestes a immolar a fronte alva, nevada,
Do venerando rei, detem-se lá na altura.
E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,
Suspenso entre a vontade e a obra começada!
Mas como, muita vez, pouco antes da procella
Se faz como que ouvir um silencio que gela,
Pára a nuvem no céu, o vento não retumba,
E a terra a nossos pés é muda como a tumba;
Subitamente após se vê no fundo baço
Um raio que illumina e rasga o immenso espaço,
Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,
Irrompe a completar a obra interrompida.
Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes
Com remorso menor os malhos flammejantes
Para forjar de Marte a gravida armadura,
Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,
De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta!
Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta!
Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado,
Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios
Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os
Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado.

POLONIO

Parece-me demasiado longo.

HAMLET