As pessoas pobres dormiam sobre o seu Neté, que era um coiro de boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.

Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á[{204}] sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso, puniam-n'o sem julgamento prévio.

Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada bercutá, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.

Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás ápas, espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do teraux e a do cousio, e que tambem lhes servia de alimento.

Sobre as ápas collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadas escambiás.

Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam berindó a este amargo manjar, um dos mais delicados da sua mesa.

Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o hydromel; que[{205}] constava de cinco ou seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado sardó, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.

Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com barro e selladas, e denominavam-se gombos. Os portadores d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.

Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam da canna para alimento.

Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.