O livro da lei, Fitha Negoust, compunha-se de textos mal traduzidos do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que jurava: amen.
O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que sobre tudo temia.
As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias festivos e para as[{202}] grandes recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.
Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o antecediam.
Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido, que fazia afastar a gente.
Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita pedraria falsa.
O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.
O Titaurári escolhia o lugar do arraial, assignalando[{203}] com uma lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.
Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.
As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.