No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o Kousso-Brayera anthelmintica, e o Gibarra—Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.

Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.[{198}]

Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.

Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande[{199}] tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos milhares de outras, todas brancas.

Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada sensação no ajuntamento.

Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico—já n'esse tempo a lingua da côrte—que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da Covilhan.

Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado da sua côrte.

Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o[{200}] levantar, fez-lhe algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.

Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.

A côrte compunha-se do Bellátimoche goytá, mordomo-mór; do Tecácase Bellátimoche-goytá, pequeno mordomo-mór; dos dois Betendet, os validos do imperador; do Titaurári, que fazia o officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava diariamente a tenda imperial o Abima, que quer dizer páe, e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha grande auctoridade, o étch'égé, prelado do numeroso clero regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado pelo abima Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do abima, havia o Labeata, padre de nomeação imperial. Junto do soberano funccionavam os Azages e Umbares, dezembargadores e[{201}] ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.