Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados caprichosos. As mulheres[{209}] encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.

O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas bolotás; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos estreitos, como se foram dardos.

Os mais nobres cingiam espada—de que raras vezes se serviam—com empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns traziam tambem adaga.

Os cavalleiros com sáia de malha—que poucos eram—não se curavam de rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.

Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.

Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.

Além da gente de armas, era muita mais a que[{210}] seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as ápas e o hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.

Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados amalé, cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.

Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras com a corrente das aguas.

A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.