A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.[{211}]

Junto de um immenso daro elevava-se o templo christão, que era de formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.

Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.

N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a prophecia de David.

Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de judaismo, com traços de budhismo.

Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.

Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se[{212}] facilmente, que não deixaram discipulos os artistas, que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.

Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a lingua lithurgica.

O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se affirmava.

Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.