O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o contrahia com o tacito[{213}] ou expresso consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso, das causas de divorcio.
As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.
Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, quando iam já distantes.
A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.
E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:[{214}] arcyprestes—komosats; conegos—debterats; curas—kasis; vigarios—nefk-kasis; diaconos—diakons; e sub-diaconos—nefk-diakons.
Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso emfim.
A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.
Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da sua casa.
Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se[{215}] perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...
Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade tambem distante!...