E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...

Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...

A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.

Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem perspectiva.

Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o alfabeto ethiopico do das[{216}] inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.

O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.

Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir o novo senhor. O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou filha,[{217}] que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em nós um amigo.»

Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade: «Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»

Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes entregou.

Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.