Helena considerava-se a mais ditosa filha da[{218}] Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do daro, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!... Amo-te muito!... muito!...»
Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...
Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...
—E porque chorava?!...
Pobre coração humano!...[{219}]
[XIII]
[REMATE]
O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.
Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o[{220}] esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.
D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!