Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,[{223}] durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.
D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da Abyssinia por creados seus;[[11]] como, porém, estivesse em preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.
Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.
Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de Alencastro—que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.
Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,[{224}] d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.
Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D. João II, ou morreu o homem, como sentenciosamente disse Isabel, a Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova certa do fallecimento.
Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso—quem sabe se nas festas de Evora!...
No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.
Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida os de maior transcendencia,[{225}] que seu irmão praticou no começo do seu reinado.
Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.