Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as buscaria.

A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.[{226}]

Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.

Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.

Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.

As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses[{227}] paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.

Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.

Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.

A esquadra, composta de dez náus, largou do[{228}] porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.

Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a embaixada portugueza.