Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu desejava, ou—porque não direi?—como nós ambos desejavamos.
Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe conversar[{230}] comvosco, condemnado, como estou a não mais vos vêr, nem ouvir.
A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...
De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.
Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado.
Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar Vermelho.[{231}]
Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir visitar a cidade santa, como elles fanaticamente chamavam a Mecca, encorporei-me na sua caravana.
Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella, senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.
Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.
Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus lugares santos...