[PAG. 155.]—«... da geração e linhagem dos Machados». É digno de reparo que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente gravadas no seu escudo.

A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só pela sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são accórdes todos os nossos genealogistas.

Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos, os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos, os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o sangue das duas familias.

A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos[{247}] os parentes d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os serviços do navegador Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o valor particular d'essa mercê.

D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e aquelles a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a uma familia, que tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.

De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II, que Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D. Affonso, primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor in utroque. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os affectos de todos os principes do seu tempo.

Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de Bragança se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando regente, o chamou para seu lado.

Seu páe, Estevam Annes, o Môço, fôra educado na casa do condestavel D. Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos Atoleiros.

Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o denomina a carta de D. Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus páes, entrou na Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em 22 de maio de 1617.

O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt. D'este e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto Bettencourt do Carvalhal Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a uma intelligencia e a uma illustração sãs, que se lhe serviram de ornamento proprio, tambem[{248}] contribuiram, para honrar mais ainda a sua estirpe nobilissima.—Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de meus filhos.