O alféres-mór levava a signa ou bandeira, a qual não estendia ou desenrolava sem especial[{53}] determinação do rei, quando estivessem á vista do inimigo, e costumava ter um alferes pequeno, que o substituia. As bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou insignias. No guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda Jámais. Com oito ou dez pendões pequenos era balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.

Havia um aposentador-mór, que de ante-mão preparava os quarteis das tropas, quando estas se mobilisavam. O capitão de ginetes era o general de cavallaria; o adail-mór, o capitão dos bésteiros; e o coudel-mór commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por coudeis.

Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros, commandados por um guarda-mór. Eram escolhidos, e andavam armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como os da camara real.[{54}]

Segundo prescrevia o Regimento, os soldados ou gente de guerra deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos atabales.

O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente conduzido. Estava a cargo de um védor-mór, aprompta-lo e pô-lo em marcha.

Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um regimento proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho.

O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer alto em Plasencia.

D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D. Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o[{55}] seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do rei de França, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de Aragão.

Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de Castella, Leão e Portugal.

Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais afortunado fosse.