D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros[{56}] ao exercito, que seu marido commandava, para conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais tarde brindou com o Marquezado de Moya.
Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois, segundo Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua mulher.
Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se[{57}] a miude as incursões de nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.
Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.
E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada de D. Juan de Guzman?
—O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião.
Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.
Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor,[{58}] saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca do movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era chamado e levado para soccorrer.
O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.
Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca.