De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que defendiam a ponte[{59}] sobre o Douro, á entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.
Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.
Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se d'essa façanha, e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o[{60}] castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.
Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver grande desigualdade no penhor.
D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo questão de igualdade das pessoas, era confessar que não queria[{61}] o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.
Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.
Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.
A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade!
D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.
—Para que?