Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde tremulava ainda a bandeira[{62}] portugueza, pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e tendo cobertas todas as communicações importantes.

Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o arraial.

Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno alcance das bôcas de fogo, mas preceito do Regimento de guerra, para fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte estava enfiada pela nossa artilheria.

Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador, de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua situação. O[{63}] nosso, além de luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.

Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D. Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido de Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.

Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.

Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde[{64}] lhe deram a nova, pois tão apertado era, marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.

D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.

Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, vindo na reserva Fernando de Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o cardeal Mendoza.

Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem finalmente de infanteria mais numerosa.