«Que a suberba do barbaro fronteiro
Tornou em baixa, e humillima miseria.»
Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias,[{68}] mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na bainha.
Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.
Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal era a confiança[{69}] que depositava no valor de seu filho e no dos companheiros, que lhe deu.
Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de Aragão.
Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando .
Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram depois de uma lucta titanica.
Singulares contrastes!
Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria, onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de Bandeira; a[{70}] outra, o cognome de Decepado a Duarte de Almeida.
«Cercado por toda a parte
Sua espada se partiu.
Por guardar seu estandarte,
D'arma o estandarte serviu:
A dextra mão jaz por terra,
O seu guante a não guardou;
O pendão na sextra aferra,
E a mão perdida vingou:
Outro golpe lhe sepára
A sextra mão que segura
A bandeira, que jurára
Conservar intacta e pura:
Nem assim perde a bandeira,
N'hastea dura os dentes crava,
Quando lança traiçoeira
Seu ginete lhe prostava:
Cahe no chão o cavalleiro
Sem vida, quasi expirando,
E ficou prisioneiro
D'illustre rey Dom Fernando.
Mas a bandeira regada
Pelo sangue portuguez,
Por Goncal'Pires livrada
Breve foi, logo outra vez.»