Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.[{71}]

A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois per força e como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a levava (a bandeira), e o prendeo sobre sua menagem,[[5]] abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.

Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.

O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação.

Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.

—Cães de portuguezes!—grunhia um.—Por causa d'elles fizeram de nós morcêgos!...

—Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de Malaga!—tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o cavallo á mão.

—Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar—observou o outro, sem nenhuma[{72}] curiosidade de saber, quem era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.

—Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!—exclamou o cavalleiro.—Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a fazer?—perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o entendimento.

—Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...