—Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.

—Fugiu, não direi... Retirou...

—Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da Beltraneja, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.

—Sim, é o mais certo;—replicou em tom indifferente o cavalleiro.

Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.

Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se concentravam no acampamento[{73}] sem apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.

D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.

Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.

—Não merece—exclamou alto e bom som—o nome de cavalleiro, quem abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!

E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe: