Justiça da Providencia![{77}]

[V]

[ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA]

Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: quem não sabe dissimular, não sabe reinar; e que, por elle ser assás astucioso e perfido, lhe chamavam a raposa.

Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro[{78}] de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.

O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de Borgonha.

Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua reputação.

Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.

A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,[{79}] que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.

Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.