De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o Lancelote do Lago, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura[{80}] do qual os paladinos dos seculos XII e XIII aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da Tavola Redonda. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.

Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.

Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial da entrevista.

A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma[{81}] béca de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.

«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos muito baixos.

«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de Portugal.

«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»[[6]]

Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se humilde até á repugnancia!

Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.[{82}]

Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.