O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.

Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim fez.[{83}]

Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos de seus agentes.

Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,[{84}] que tratassem com essa potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.

A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro dos dois monarchas em Arras.

Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.

Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.

Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:[{85}]

—Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.

Ao que Pero da Covilhan respondeu: