—Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu rei e Senhor.
—Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, dando-me algum allivio o desabafo.—Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, que vivem e morrem na regencia de seus[{86}] estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus dias em uma clausura.
Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!
—Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...
D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito impressionado:
—Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua[{87}] espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a Castro Nunho.
Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.
Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.
Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva estivesse presente.[{88}]
Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em regressar do seu passeio.