Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.
Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.
Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha[{89}] vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.
Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.
Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.
O conde de Penamacor, que era o primeiro[{90}] camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia sobre brasas.
Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado o Grego.
O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...
[D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam as lettras];[{91}] por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.
Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.