Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.
Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da realeza.[{99}]
[VI]
[PESQUIZAS]
Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.
Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de armas[{100}] em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil vassallos d'el-rei, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas em Evora a 12 de setembro de 1481.
Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua guarda.
Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de achar-se rodeado de [cortezãos dotados de boas prendas], e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.
Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr dançar com primor a retorta mourisca pelas damas trajando ao uso arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a lembrar os desafios poeticos, as côrtes de amôr, o jogo dos naipes, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.
Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real jardim de formosura, como depois Gil Vicente[{101}] chamou ao estrado das damas de D. Leonor.