Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a innocente princeza D. Joanna:
«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado[{95}] e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e[{96}] grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados».
Depois da profissão da Excellente Senhora—tratamento dado a D. Joanna tanto que vestiu o[{97}] habito de clarista—D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.
A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.
Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.
Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.
Malfadada condição a sua![{98}]
Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.
Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.
O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.