—Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...

—Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...

—Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu saiba corresponder ás vossas esperanças!

—Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de Deus, Thereza!...

—Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha, minha Senhora. Adeus.

Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:

—Encantadora!...

E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que[{106}] geralmente o interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.

A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.

Que mãe de familia com taes dotes![{107}]