Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe religião, que se avigóre.
Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.
Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao imagina-lo.[{108}]
Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de eleva-lo.
O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.
Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de Pero da Covilhan.
Desinteressado amor!
A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava[{109}] por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o coração.
Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a Maria Thereza:
—De novo passo á Barberia.