—Deus vos guie!—respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.—Comvosco vae tambem o meu coração, que é vosso.

Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.

D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a[{110}] ossada de D. Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.

Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.

Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do plano politico de D. João II.

Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.

—Bem o fizestes—disse-lhe o rei—; e agora—muito secretamente—espéro de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?

—Préstes estou, meu Senhor e rei—respondeu Pero da Covilhan.—Peza-me, porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir voss'alteza...

—Embóra, ireis, que Deus vos guardará.—A descobrir e saber do Preste João, e onde se acham[{111}] a canella e as outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e discernimento muito mais confio...

—Mercê a voss'alteza, meu Senhor...