—O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.

—Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por que beijo a mão de voss'alteza.

—Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos dou para auxiliar-vos.

Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:[{112}]

—Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...

—A Virgem vos ouça!—exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e radiante.—A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...

E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé revigóra.

Nem um uma lagrima derramaram!

As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se prova, com as que se deixam de chorar.

Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se queriam.