No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o Calçadilha, depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o primeiro[{113}] parte na junta dos cosmographos. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.

Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.

E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.[{114}]
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[VII]

[EM RHODES]

Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.

Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram n'ella, pois.

Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo[{116}] a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com Thereza.

Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.

A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para Rhodes, surge n'este porto.