Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.

Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos d'elles.

Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só[{117}] davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.

Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.

Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio[{118}] dos rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais florescentes cidades da Asia.

Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.

Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.

Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.

—Depois de assalto á cidade fugiram para ella[{119}] grande numero de turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.

—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção distrahida[{120}] para Africa, e não nos auxilie em nossa empreza!...